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Millard J. EricksonEm meados da década de 60, surgiu uma nova teologia que enfatizava fortemente a escatologia. Esta não era vista com uma das doutrinas mais importantes da fé cristã, nem sequer como “A” doutrina mais importante, mas como a totalidade da teoogia, a moldura ou disposição dentro da qual toda teologia deve ser conduzida. Por isso, logo foi rotulada de teologia da esperança, e tem sido especialmente identificada com Jürgen Moltimann, atualmente catedrático de teologia na Universidade de Tübingen. Nesse período, outros também contribuíram com essa nova ênfase escatológica. Entre eles estão: Wolfhart Pannenberg, colega de Moltmann em Wuppertal; Walter Kreck, seu colega de estudos em Göttingem; Gerhard Sauter; e Johannes Metz, o teológo católico romano. Embora tenha havido estímulo mútuo entre Moltmann e cada um desses homens, e uma ligação ocasional como membros de um movimento, sua cooperação e concordância quanto aos pensamentos são relativamente fragmentárias.
PARA ENTENDERMOS ESSA TEOLOGIA, devemos analisá-la no contexto das experiências pessoais de moltmann como também das influências culturais gerais mais amplas.

Moltmann, nascido em 1926, faz parte da jovem geraçãode alemães que viveram durante a Segunda Guerra Mundial. Ele viu o colapso do estado alemão e de todas as suas instituições. Foi encarcerado num campo inglês de prisioneiros de guerra até que fosse repatriado em 1948. O período em que passou no campo teve uma influência específica sobre ele. Notou (como notaram vários outros prisioneiros que publicaram relatos de suas experiências) a diferença que a esperança faz até mesmo para a sobrevivência física: “mas de um modo geral não nos sentiamos nem céticos, nem resignados. Naturalmente, pesava-nos um sentimento sombriu de culpa e aflição. Mas voltamos para a Alemanha, decididos de que agora e para sempre as coisas deveriam ser diferentes, mais humanas e democráticas. Talvez, atrás dos arames farpados tivéssemos descoberto o poder de uma esperança que buscava algo novo, não meramente um retorno às condições antigas” (Moltmann, Politics and the Practice of Hope. P.288)
Ao voltar para casa em 1948, Moltmann tinha a esperança de uma Alemanha mais humana e de uma igreja cristã libertadora. Na Universidade de Göttingen, foi aluno de Gerhard von Rad, Ernest Käsemann, Hans Joachim Iwand, Ernest Wolf, e Otto Weber. Ficou realmente impressionado com a teologia de Karl Barth. Depois de estudar a Dogmatica eclesiástica de Barth por algum tempo, chegou à conclusão de que nunca poderia haver outra nova teologia sistemática porque Barth já dissera tudo. Em 1957, o teólogo holandês Arnold A. Van Ruler apresentou a escatologia a Moltmann. Mas foi através da leitura do filósofo marxista Enerst Bloch que ele despertou para o conceito de esperança e foi por ele desafiado. Em suas palavras:
Minha primeira impressão foi: Por que a teologia cristã deixou que esse tema lhe escapasse – um tema que certamente lhe pertence? O que aconteceu com o espírito cristão primitivo da esperança? Então comecei a trabalhar a “teologia da esperança”, e, de uma só vez todos os fios soltos da teoogia bíblica, da teologia do apostolado e do reino de Deus, e da filosofia emergiram num padrão para uma tapeçaria em que tudo se encaixava. (Moltmann, Politics and the Practice of Hope. P.289)
Um ponto de partida para começar a examinar a teologia escatológica de Moltmann é notar sua natureza apologética. É uma tentativa de demonstrar a pertinência da fé cristã ao relacioná-la de algum modo específico com os questionamentos que eram feitos pelo mundo secualar. Ele descreveu a crise teológica cristã num artigo de revista, chamado “Hope and History” [“Esperança e história]. Notou que muitos acreditavam que a teologia cristã se tornou irrelevante, introvertida e individualista, fora de contato com a realidade. Esse grande campo de dificuldades apresenta um novo desafio à teologia. O desafio só pode ser enfrentado se o sistema teológico for reorganizado e reorientado para a totalidade do esforço teológico. Duas experiências enfatizam essa nova situação.
A primeira diz respeito a diálogos com ateus, humanistas modernos e marxistas, em que sempre se chega ao reconhecimento de um rompimento profundo na era moderna. Nos últimos dois séculos, a fé cristã tem-se tornado cada vez mais uma fé em Deus sem esperança para o futuro do mundo. Ao mesmo tempo, por causa da necessidade da esperança, surgiu um tipo secular de esperança para o futuro do mundo – mas sem fé em Deus. Esse é o resultado do fracasso do cristianismo de atender a uma necessidade inevitável do homem. Dess modo, o cristianismo tem um Deus sem um futuro, e o ateísmo temumfuturo sem Deus. As esperanças messiânicas “emigraram da igreja” e se revestiram de progresso, de evolução e revoluções. A igreja foi deixada com apenas uma meia verdade. A pergunta é: deve haver uma separação dos caminhos na história, em que a fé se alinha ao passado, e a falta de fé ao futuro? Ele responde: “Creio que só podemos superar o dilema presente se os cristãos começarem a lembrar-se do ‘Deus da Esperança’, como é testificado na história promissória do Antigo e Novo Testamentos, e assim começaremos a assumir a responsabilidade pelos problemas pessoais, sociais e políticos do presente”. (Moltmann, Hope and History, p.370).
A outra experiência é a emergência de “um mundo”. Enquanto no passado cada nação e grupo racial podia ter sua própria história em um isolamento relativo do restante do mundo. Hoje chegamos a uma etapa na história do mundo em que somos capazes de aniquilar a totalidade de raça humana. Se a humanidade sobreviver, isso só será possível em uma nova comunidade. O futuro, portanto, não será uma mera continuação do passado, com sua multiplicidade de histórias. Temos muitos passados, mas teremos um só futuro. Nas palavras de Benjamin Franklin: “Devemossegurar-nos juntos – senão seremos enforcados separadamente”. Chegamos, portanto, ao salto das quantidades da história para uma nova qualidade da história.
Esse, portanto, é um lado do dilema e da crise do cristianismo: a crise da relevância. O outro lado é a crise da identidade do cristianismo. Moltmann está preocupado em evitar que o cristianismo, na tentativa de relacionar-se com a busca do mundo pela esperança, comprometa e acomode sua verdadeira natureza. No interesse de estabelecer um ponto de contato com a existência histórica contemporânea, boa parte da teologia moderna tem tendido a afirmar demasiadamente a cultura, que acabou perdendo a essência da mensagem cristã. Moltmann, poroutro lado, isiste que a teologia deve ressaltar os elementos negativos e contraditórios da existência histórica contemporânea.
A relevância da teologia depende de seu conceito da ressurreição do Cristo crucificado. O cristianismo só pode mostrar-se digno de crédito e relevante ao “descobrir sua verdade interna para então orientar sua vida, tanto na prática como na teoria, com base naquele que faz com que a igreja seja uma igreja cristã, a fé seja uma fé cristã e, portanto, a teologia seja uma teologia cristã.
A partir de experiências como essas, Moltmann formulou a orientação básica de sua teologia. O que, de fato, ele diz é que, quando a teologia é mais leal à sua natureza essencial,o cristianismo de forma básica e radical se volta para o futuro e, assim, para a esperança; como consequência, dirige-se a responder às perguntas feitas pela humanidade.
A teologia da esperança aplica o conceito escatológico á totalidade da teologia. Tradicionalmente a escatologia tem sido um dos pontos de concentração dateologia sistemática. Geralmente, tem sido o último do tópicos, haja vista que as últimas coisas foram sendo literalmente as últimas coisas tratadas. Frequentemente eram tratadas como um tipo de apêndice à teologia cristã – praticamente dispensáveis, por assim dizer.Visto que os professores de teologia muitas vezes se encontram atrasados em seu currículode preleções, com frequência tem sido dado um tratamento um tanto quanto limitado à escatologia. A impressão tem sido transmitida quase de forma subliminar: a escatologia não temimportância. Em contraste com isso, Moltmann considera a escatologia como um espírito, uma perspectiva, umamolduradentro da qual toda teologia deve ser conduzida.
Boa parte da teologia tem-se preocupado com o status do ser de Deus, discutindo-o em termos de sua imanênciaou transcendência. A transcendência representa Deus como um ser distante, como “Deus além de nós”. Deus está tão alto e é tão intocável que não pode ser concebido. Deve-se pensar em Deus de modo cosmológico, em identificação com o vasto cosmos. A visão imanente de Deus o retrata perto de nós, identificado conosco, como “Deusdentro de nós”, estando ele relacionado à experiência psicológica. Imagens de Deus emergem de cada flor, de cada brisa. Mas tanto o Deus além de nós quanto o Deus dentro de nós estão desacreditados, segundo Moltmann, porque a realidade não é cosmos nem pura subjetividade, mas história. No Israel antigo, a realidade era considerada como história, não como cosmos nem como experiência interior. Como consequência, concebe-se Deus também nesse modelo histórico. Ele é o Deus das promessas e a orientação histórica em direção aocumprimento, o Deus do reino vindouro. Seu lugar se define, portanto, não em relação ao espaço, mas em relação ao tempo. Não está “alémde nós” nem “em nós”, mas “na nossa frente” e “adiante de nós”. O futuro é o modo de ser de Deus.
Esse também é o modelo de entendimento da Bíblia. A realidade ou o mundo é concebido como história. No entanto, o futuro de Deus nunca é futuro puro, mas é precedido por uma história de promessas e antecipações. Uma promessa é o anúncio de uma realidade que ainda não chegou. A história das tradições de Israel revela um processo de realização e reinterpretação que se altera.
As esperanças são cumpridas, mas não completamente. Anova realidade necessita de uma nova interpretação das esperanças. Em especial, Jesus anunciou a chegada do futuro ao trazer liberdade escatológica ao presente. Temos nos acontecimento da Páscoa um foco de esperança universal.
Cristo é a antecipação do futuro de Deus, especialmente no símbolo da ressurreição. Aqui está a prolepse da realidade do eschaton: a presença do futuro de uma pessoa específica, exclusivamente no Cristo crucificado. (Jürgen Moltmann, Theology and Eschatology, p20.). Ele ressuscitou dos mortos e agora vive no futuro de Deus. Além disso, o evangelho também é prolepse de palavras. O evangelho torna manifesto o significado universal inerente ao evento Cristo. O que aconteceu a ele é “por” todos nós e está à frente de todos nós. Também é o precursor do seu aparecimento universal, pois fica entre sua ressurreição e seu aparecimento em glória. (Jürgen Moltmann, Theology and Eschatology, p.21).
A ressurreção de Cristo é o começo e também a antecipação dalibertação final do mundo. O mundo será transformado. O evangelho não meramente anuncia o fato; realmente intermedia ou produz a esperança. Podemos falar dele como um sacramento da esperança. Visto que Cristo é o futuro trazido para o presente, devemos perguntar, ainda, como ele é presente para nós hoje. Ele está presente de forma verbal e espiritual quando a congregação está comissionada pela Palavra e quanto cumpre sua missão no mundo necessitado. (Jürgen Moltmann, Theology and Eschatology, p.35-36).
A igreja é, pois, chamada amediar a presença de Cristo, que por sua vez media o futuro de Deus. Mas como mediamos essa esperança? Isso não ocorre meramente pela espera passiva ou pelo ato de anunciar aquilo que há de vir.A comunidade tem sido conclamada a levar a efeito esse futuro: “somos obreiros de construção e não apenas intérpretes do futuro, cujo poder, tanto na esperança como na realização, é Deus. Isso significa que a esperança cristã é uma esperança criadora emilitante na história. O horizonte da expectativa escatológica produz aqui um horizonte de intenções éticas que dá significado a iniciativas históricas e concretas” (Jürgen Moltmann, Hope and History,. P.384.)
O cristão é alguém que espera o futuro de Deus e a libertação final do mundo. Ele não pode, poém, aguardar esse futuro de forma passiva; deve buscá-lo, esforçar-se por ele, trazê-lo ao presente. Por se tratar da realidade da esperança e do futuro e sua natureza libertadora e unificante, o futuro de Deus não poderia ser um futuro restrito à igreja ou à alma. Pelo contrário, trata-se de um futuro que a tudo abrange, e que é capaz de mediar a fé às necessidades terrenas.
Assim, oque se torna necessário agora é uma teologia política que procure transformar o mundo inteiro. A ética não é um apêndice à dogmática ou uma consequência da fé. A própria fé tem um contexto messiânico. A esperança cristã deve ser criadora e militante. O reino não permanece simplesmente descansando na expectativa da passagem do tempo, enquanto esperamos por ele e dexamos o presente como está. Devemos trazer o reino à existência.
O grande problema da teologia mais antiga ou cosmológica, que relacionava Deus com o cosmos “lá fora,” é o problema do mal: se Deus é bom e poderoso, como pode existir o mal no mundo? O alvo dessa teologia é a teodiceia, ou seja, a tentativa de justificar Deus. Isso ainda é um problema para a teologia hoje, mas a solução encontra-se numa direção bem diferente. Em vez de reflexão ou contemplação, que gira em torno de explicações, a teologia política, o futuro de Deus é mediado por meio dos poderes do homem de transfomar o mundo. A antiga pergunta – “Por que Deus não faz algo para solucionar o problema do mal no mundo se ele é tão poderoso?” – é mudada para: “Se somos mediadores do futuro de um Deus poderoso e amoroso, o que faremos quanto ao mal no mundo?” (Jürgen Moltmann, Theology as Eschatology, p.46-47.)
Embora não devemos apenas esperar passivamente a chegada de um futuro predeterminado e final, ainda assim, o futuro não é simplesmente alguma coisa que antecipamos como resultado dos nossos esforços. “É irreal antecipar e trabalhar pelo futuro se esse futuro não vier ao nosso encontro” (Jürgen Moltmann, Hope and History, p.385.). Se o futuro for idêntico aos sucessos de nossa atividade, será um futuro patético, pois nossas ações são tão ambíguas quanto nós mesmos, na medida em que somos seres históricos. Movemo-nos em direção ao futuro, e ele se move em direção de nós. O futuro tem valor acima, além do atingido e do atingível, e isso se deriva da ressurreição do Cristo crucificado e se relaciona a ela.
Um número de aspectos altamente recomendáveisaparecem nessa teologia que é, de certa forma, incomum. O primeiro é que toda teologia tem algum tema central e integrante, algum ponto fundamental em torno do qual giram todas as suas partes. Nesse sentido, Moltmann deve ser elogiado por desenvolver a sua teologia de modo explícito e consciente, não acidental.
Esforçou-se por desenvolê-la completamente e não simplesmente como reflexão tardia.
Outra maneira de dizer isso é dizer que Moltmann reconheceu ocaráter orgânico da teologia. Não é meramente uma coletânea de doutrinas, um fardo frouxamente atado de tópicos. Há uma conexão, por exemplo, entre o conceito de Deus e o conceito do homem.
Moltmann enlaçou toda ideia do futuro em sua ética. Logo, acrença e a prática são apenas dois aspectos da mesma verdade, não dois âmbitos separados. O homem é motivado a realizar aquilo que, segundo acredita, acontecerá.
Além disso, Moltmann discerniu a presença penetrante do escatológico na Bíblia, especialmente nos evangelhos e esforçou-se para tratá-la à altura. Como Albert Schweitzer, percebeu que o escatológico interpenetra de tal maneira o restante dos temas do cristianismo, de modo que não é possível destrinça-lo, eliminá-lo ou desconciderá-lo sem que o todo seja arruinado.
No lado negativo, porém, há certos problemas. Em primeiro lugar, embora a escatologia esteja poderosamente presente dentro da Escritura, ela não é o único tema. Do mesmo modo, seria bem possível construir uma teologia orientada primeiramente para os acontecimentos passados da história ou para a atividade passada de Deus. ”Já, mas ainda não” é uma maneira de interpretar a mensagem. “Ainda, mas não mais’ poderia ser igualmente legitimo. Em razão de sua escolha temática, Moltmann teve de ser seletivo em vez de compreensivo, mas fato é que uma teologia deve ser compreensiva.
Em segundo lugar, há certa falta de clareza nessa teologia, precisamente nos pontos em que deve ser mais precisa. Não fica claro, de modo algum, qual deverá ser exatamente a atividade da igreja ou qual será esse efeito humanizante. Há considerável ambiguidade quanto ao fato de a esperança proclamada e conclamada por Moltmann ser ou não deste mundo: se é uma sociedade a ser realizada aqui na terra, se é de outro mundo e qual a extensão disso; se éalgo a ser experimentado depois desta vida em algum reino celeste. Como se apresenta, constitui um chamado bem sustentado e claramente enucidado à igreja para que exerça influência transformadora em nosso mundo, na realização do futuro; mas qual será exatamente esse futuro ou o que a igreja deve fazer são questões que nãoforam esclarecidas.
BIBLIOGRAFIA:
ERICKSON, Millard J. Escatologia: a polêmica em torno do milênio. São Paulo : Vida Nova, 2010. Pg. 53 – 62.
Texto integralmente transcrito.